Mesmo com os olhos abertos para o futuro, Clara Zetkin não imaginaria a dimensão histórica da resolução que instituía o Dia Internacional da Mulher no 8 de março, data provável da morte de 129 operárias têxteis queimadas vivas em Nova York, em 1857. A proposta feita pela comunista alemã na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Socialistas realizada em 1910, na Dinamarca, selava simbolicamente a íntima relação da caminhada libertadora da mulher com a luta dos operários pela sua emancipação social.
O sonho de igualdade saltava das máquinas para os lares, envolvendo, no mesmo espaço de luta, homens e mulheres, escravos comuns nas fábricas e desiguais na rotina doméstica. Contra os patrões a luta social, entre os irmãos de classe a busca do respeito às diferenças na conquista da igualdade.
Nesse caminhar comum os socialistas abriram uma nova perspectiva para a luta feminista. Os "utópicos" foram os primeiros, com Flora Tristan e Fourrier, em meados do século passado. Mas não parou por aí. A Primeira Internacional Socialista, que funcionou de 1864 a 1872, tratou do problema, referindo-se ao trabalho feminino como inevitável e exigindo uma reforma das leis que protegesse a força do trabalho e a saúde da mulher. Foi um período de intenso debate, quando Marx condenou energicamente a ala direita da Internacional, que queria limitar o alcance do trabalho feminino em consideração à família. A partir do momento que em as organizações do movimento operário discutiam o tema, a luta deixava de ser específica da mulher para ser de responsabilidade dos progressistas e socialistas do mundo, todos, homens e mulheres.
A revolução russa, de 1917, com Lênin à frente, concretizou essas preocupações sob a forma da mais avançada legislação relativa à mulher já conhecida, e desenvolvendo um esforço geral de integração da mulher russa na sociedade e no Estado. Como a história humana não se desenvolve em linha reta, essas conquistas foram golpeadas, ao longo desses anos de restauração do capitalismo na antiga URSS.
Quando os que criticam o progresso da humanidade e tentam sepultar os sonhos de todos nós de uma sociedade de igualdade, é bom lembrar a situação de discriminação das mulheres nos países capitalistas mais avançados, situação esta que torna completamente atuais, as resoluções da III internacional (funcionando até 1943) que buscavam: "a igualdade social da mulher e do homem perante a lei e na vida prática; o reconhecimento da maternidade como função social; a entrega à sociedade do encargo de cuidar da educação das crianças e dos adolescentes; a luta civilizadora organizada contra a ideologia e as tradições que fazem da mulher um escrava".
Os socialistas de então não imaginariam que chegaríamos à primeira década do século XXI levantando as mesmas bandeiras suas e das operárias francesas de 200 anos atrás. Nenhuma outra corrente de pensamento como a marxista teve tão presente, em todo seu desenvolvimento, a importância da emancipação da mulher como condição decisiva para o progresso da humanidade. Por isso a perspectiva do feminismo hoje passa pelo reencontro do "velho" sempre novo sonho da igualdade socialista.